Acho que eu evito muito da vida por memórias que não quero desenterrar.
Perder dói. Lembrar da perda dói mais ainda. Talvez... seja um processo de negação. Talvez seja falta de maturidade em questões básicas do manual de viver: a gente nasce, vive e morre. Ciclo natural em todos os aspectos do respirar. Aceitação então é sinônimo de maturidade? É sinal de grandeza? Eu sou obrigada a aceitar então que é justo perdermos quem amamos? Que tipo de justiça é essa?
Desumana. Sentir requer a queda de máscaras para a mostra de vulnerabilidade. Sentir é pros fortes, que me desculpem vocês que acham fácil amar, como se o ato (pra muita gente ainda é um ato! ah, tolos...) fosse simples como comer o cereal todos os dias no café da manhã. Amar requer força para um conhecimento que vai além da sua cor preferida. Amar exige uma maturidade absurda de libertar quando necessário.
Quem consegue deixar livre o objeto de desejo?
Por isso eu digo e repito todos os dias de minha vida: amar é pros fortes. É fácil sentir paixão, ficar sem ar, explodir de tesão em qualquer lugar. É fácil demais se desesperar por um beijo. Difícil é se permitir sentir aquela leveza ao segurar a mão - um ato aparentemente simples, mas tão intenso e significativo que nos tira o chão e nos leva para um momento imensurável: o da segurança e tranquilidade. Amor é leveza. É aquela brisa no fim de tarde do verão.
E essa leveza, poucos conseguem sentir. O restante está muito ocupado tentando sentir as trovoadas, tentando ser levado por uma correnteza que nos dá prazer instantâneo sim; mas não nos proporciona a plenitude que é ter o prazer prolongado, que vem aos poucos, que nos impulsiona à um sono tranquilo e confiante de que o amanhã sempre será garantido, apesar de tudo.
Aceitar que essa grandeza tem fim, isso sim, é difícil. Aceitar que o inenarrável - aquele onde nos agarramos e tivemos fé que seria um pilar por tempo indeterminado - vai acabar; a vida é isso e nossa impotência diante de desejos e sentimentos é tão grande que não há meios de lutarmos contra. Não há meios de intervir na única certeza que temos enquanto vivemos: o fim.
Preferia ser fraca e lidar com a morte de períodos como lidam os que sentem paixão - ou qualquer outro sentimento similar. Preferia ficar sem fôlego por tempo determinado. Preferia o superficial. Pois admitir força e sentir essa tristeza aguda todos os dias por uma perda real que foi escolhida única e exclusivamente por mim... oh, it breaks my heart.
Admitir e escolher libertar é infinitamente mais dolorido que ser libertado.
domingo, 19 de junho de 2011
quinta-feira, 2 de junho de 2011
theydontknow
Sabe como é? É como quando estou contigo, a sensação é de um outro mundo totalmente diferente. Aquele lugar se transforma em outra vida que, de fato - e que fato! -, não existe. É tudo mentira, e é aquela mentira gostosinha em que nos apegamos quando não queremos acreditar na vida que temos de verdade. Acredito que seja a nossa realidade mesmo, isso me faz sentir assim. A idéia do mundo paralelo. Eu realmente sinto como se fosse algo à parte - e hoje, mais do que nunca, eu queria me livrar da minha vida de Manu e só ser a Manu que existe neste outro maravilhoso mundo. Esquecer contas a pagar, esquecer que devo ligações, esquecer satisfações, esquecer superações diárias, esquecer responsabilidades, expectativas, medos, frustrações, incertezas... só esquecer.
E viver neste mundo onde as flores são mais coloridas e o ar é mais puro. Onde não existe mais nada além de você, eu e o amor que sentimos. Onde máscaras não são necessárias e muito menos injeções dessa falsa liberdade que a vida real nos impõe. Onde bondade e ingenuidade são gratuitas e sem nenhum tipo de interesse malicioso.
Eu quero abraços sufocantes e beijos intermináveis. Quero te observar sem pressa e sem medo de outros olhos estarem presentes. Quero conversas complexas infinitas na mesma proporção que desejo rir do mais tolo motivo ao seu lado - não há maior prazer no mundo pra mim do que fazer esse seu sorriso lindo nascer.
Eu quero estar onde eu possa ser eu e você, e mais nada.
E viver neste mundo onde as flores são mais coloridas e o ar é mais puro. Onde não existe mais nada além de você, eu e o amor que sentimos. Onde máscaras não são necessárias e muito menos injeções dessa falsa liberdade que a vida real nos impõe. Onde bondade e ingenuidade são gratuitas e sem nenhum tipo de interesse malicioso.
Eu quero abraços sufocantes e beijos intermináveis. Quero te observar sem pressa e sem medo de outros olhos estarem presentes. Quero conversas complexas infinitas na mesma proporção que desejo rir do mais tolo motivo ao seu lado - não há maior prazer no mundo pra mim do que fazer esse seu sorriso lindo nascer.
Eu quero estar onde eu possa ser eu e você, e mais nada.
sábado, 23 de abril de 2011
prettymuchit
"As palavras seduzem, encantam, aproximam - e por isso são realmente perigosas. Porém as palavras também chocam, horrorizam e distanciam - e aí passamos a correr outro tipo de perigo, o da não comunicação, da incompreensão.
Deus é silencioso, mas principiou tudo com o verbo: toda palavra, falada ou escrita, está cheia de inferno e céu. As palavras revelam. As palavras escondem. Por isso, toda palavra é, em si, um mistério. O (claro) enigma que falava o nosso poeta.
As palavras tem, ao mesmo tempo, um significado raso e outros, bastante profundos.As palavras são (ainda bem!) ambíguas. Duplo sentido: as palavras falam e não falam aquilo que estão dizendo. Lutar com as palavras é a luta mais vã."
Por Matinas Suzuki Jr.
domingo, 10 de abril de 2011
lorena
Lorena gosta das noites de sábado em casa. Nelas, ela não está cansada. Nelas, seus olhos não insistem em fechar a cada página virada de um livro. Nelas, seu corpo não suplica por descanso. Nelas, as madrugadas são longas e silenciosas.
O barulho da chuva lá fora é poético e acolhedor. Acolhe Lorena como uma nuvem protege seu anjo. Acolhe com a inspiração de textos absorvidos; de palavras engolidas com gosto; de vocábulos soltos em uma mente perturbada em tantas teorias utópicas e ao mesmo tempo tão reais e plausíveis.
Sozinha. Hoje, só, Lorena está tagarelando. Está poetizando. Analisando. Está verbalizando... andando... andando... e está sóbria, o que é pior! Ela precisa perder um pouco da lucidez, que a tem acompanhado todos os dias de sua vida nos últimos meses. Sair um pouco de si, embora ela realmente não goste de perder o controle de suas ações – e principalmente – de suas palavras. Mas hoje, excepcionalmente, está sentindo essa vontade.
Enquanto as horas passam, Lorena espera por algum tipo de inspiração que arranque de sua alma toda essa junção de sentimentos e vontades. É um misto de paradoxos e redundâncias. Coisas definidas e não definidas. A imaginação luta contra a realidade. Ou a realidade luta contra a imaginação? É um bocado de plano e força pra sonhar, e falta de força pra chegar ao fim (fim? depende do ângulo). Falta força e coragem pra lutar com garra e alcançar o que no momento é inatingível, mas no fundo nós sabemos que se fizermos o mínimo de esforço, conseguimos atingir.
Sobra medo da falha. Ou medo do tempo de espera. Sobra – e como sobra! – ansiedade e expectativa. Ansiedade é o fraco de Lorena. Ela não tem paciência, ela tem pressa. Muita pressa. Imediatismo a trava, é o que a impede, é o que tira sua força de tentar o sonho.
Sobre desejo e falta permissão. Permissão de voar por entre os picos de atrações. Desejo de concretizar o imaginado.
Sobra tempo e falta paciência.
Lorena parou de fumar, mas acenderia um cigarro neste exato momento. E abriria uma garrafa de vinho para saborear cada gole da perda da sobriedade. Para talvez, no auge de sua embriaguez, ela – parafraseando Camelo – possa ter força pra sonhar e perceber que a estrada vai além do que se vê.
24 de janeiro de 2010 – 01h59.
O barulho da chuva lá fora é poético e acolhedor. Acolhe Lorena como uma nuvem protege seu anjo. Acolhe com a inspiração de textos absorvidos; de palavras engolidas com gosto; de vocábulos soltos em uma mente perturbada em tantas teorias utópicas e ao mesmo tempo tão reais e plausíveis.
Sozinha. Hoje, só, Lorena está tagarelando. Está poetizando. Analisando. Está verbalizando... andando... andando... e está sóbria, o que é pior! Ela precisa perder um pouco da lucidez, que a tem acompanhado todos os dias de sua vida nos últimos meses. Sair um pouco de si, embora ela realmente não goste de perder o controle de suas ações – e principalmente – de suas palavras. Mas hoje, excepcionalmente, está sentindo essa vontade.
Enquanto as horas passam, Lorena espera por algum tipo de inspiração que arranque de sua alma toda essa junção de sentimentos e vontades. É um misto de paradoxos e redundâncias. Coisas definidas e não definidas. A imaginação luta contra a realidade. Ou a realidade luta contra a imaginação? É um bocado de plano e força pra sonhar, e falta de força pra chegar ao fim (fim? depende do ângulo). Falta força e coragem pra lutar com garra e alcançar o que no momento é inatingível, mas no fundo nós sabemos que se fizermos o mínimo de esforço, conseguimos atingir.
Sobra medo da falha. Ou medo do tempo de espera. Sobra – e como sobra! – ansiedade e expectativa. Ansiedade é o fraco de Lorena. Ela não tem paciência, ela tem pressa. Muita pressa. Imediatismo a trava, é o que a impede, é o que tira sua força de tentar o sonho.
Sobre desejo e falta permissão. Permissão de voar por entre os picos de atrações. Desejo de concretizar o imaginado.
Sobra tempo e falta paciência.
Lorena parou de fumar, mas acenderia um cigarro neste exato momento. E abriria uma garrafa de vinho para saborear cada gole da perda da sobriedade. Para talvez, no auge de sua embriaguez, ela – parafraseando Camelo – possa ter força pra sonhar e perceber que a estrada vai além do que se vê.
24 de janeiro de 2010 – 01h59.
quinta-feira, 10 de março de 2011
bomdiasóamanhã

Olívia nunca teve problemas de sono. Sempre dormiu excepcionalmente bem.
Mas nesta última noite, um susto a surpreendeu. Como de costume, deixou a janela aberta - ela gosta de sentir o sol no rosto junto com o dia nascendo. Teve um pesadelo tão forte e assustador que acordou trêmula - e paradoxalmente, dura. Seu corpo estava tenso e ao abrir os olhos, só conseguia sentir o pavor de se movimentar e perceber que aquilo era uma realidade.
Claro que tudo não passava de um sonho ruim. Mas com uma ótima imaginação sua primeira reação foi olhar pela janela. Na iluminação da lua (eram três da manhã) ela levantou prontamente pra ligar o velho televisor largado numa estante caindo aos pedaços e correu pra fechar a principal porta do seu medo. Fechava os olhos tentando se concentrar pra voltar a dormir e só conseguia reviver aquele momento tenso de perseguição e ameaças. Mas, após alguns minutos, adormeceu novamente.
-
As luzes da sala principal de casa estavam claras como nunca, quase cegando nossos olhos. Mamãe anuncia a chegada do tio com as primas. E então ele apareceu, de sopetão, logo atrás. Com seu sorriso e sua felicidade que sempre foram radiantes. Ele tinha ingressos pra toda a família ver o show do Arnaldo Antunes. De onde surgiu o Arnaldo nessa história seria praticamente impossível explicar; mas isso é irrelevante. Pois além dele voltar para nós, ainda fez questão de nos presentear com um show, um perfeito programa em família.
O que na real, era quase - senão total - insignificante, perto da alegria que sua presença física e espiritual nos trazia. O tio chorava como criança, eu jamais me esquecerei de sua expressão ao dividir e soltar sua extrema felicidade.
E o mais engraçado desse sonho? Todos os meus familiares falavam e riam. Menos papai. Papai foi o único a silenciar. E isso me agradava muito mais: me fazia crer que aquela era de fato, uma visita. Pra mim. Pra nós.
-
Os mortos quando silenciam dizem muito mais do que qualquer ser humano vivo, respirante, falante, atuante. Ele veio pra acalmar o pesadelo, e a menina tinha certeza disso.
Olívia acordou com vontade de se juntar à grande festa que, certamente, acontecia lá no andar de cima. Mas principalmente: despertou motivada a viver tudo que possui a qualquer custo; quis respirar cada gota de ar que chegasse até ela e celebrar as pequenas (grandes!) coisas da vida. Assim como seu pai, que em sua curta vida, fez tudo tão intensa e belamente.
Olívia acordou com saudades vazias.
Bom dia? Só amanhã.
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
silenciando
Palavras que já não têm mais valor poderiam sumir; assim como o corpo humano se desintegra quando morre.
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
diantedeumbommotivo
A Viagem de Theo, romance das religiões por Catharine Clement, trata de um garoto de 14 anos com uma grave doença, provavelmente incurável. Sua tia, Marthe, resolve levá-lo para viajar pelo mundo. Eles passam por Jerusalém, Cairo, India, Japão, Brasil, Praga... entre outros lugares. O objetivo? Conhecer, aprender e viver um pouco de cada religião. Abaixo, há um trecho editado do livro. Onde Théo, no final de sua viagem, encontra sua avó e conta um pouco sobre sua experiência e o fato de ter sido curado. Ele mostra que a fé provém do sentir, e não de um deus específico. Do acreditar.
O tema já foi abordado aqui anteriormente; mas esse trecho do livro é essencial - aos crentes e aos descrentes.
- Vou te explicar. Escute... Vejo as religiões como os galhos de uma árvore. Uma só árvore grande, com raízes subterrâneas que correm sob a Terra inteira... Depois o tronco sai da terra, bem reto, bem limpo. A árvore é um baobá da África, porque pode-se gravar em sua casca o que bem entender. Leia você mesma: 'Deus existe para o bem do homem'. É o que está escrito no tronco.
Todas as religiões querem reunir e proteger. Para consegui-lo, exigem elas, não se pode desviar um milímetro. Uma árvore tem que ser regada com água limpa. Não se pode fazer xixi nela, nem estragá-la jogando lixo em seu pé. Também não pode haver poluição! Portanto, as religiões se preocupam muito com a pureza. Isso também, a proteção contra a poluição, está no tronco comum. O adubo também, que se chama sacrifício.
Acontece que os primeiros jardineiros de Deus morrem. Os seguintes brigam uns com os outros, parece que é humano. Cada jardineiro tem sua opinião sobre o adubo. Um belo dia, cada um deles publica seu manual de instruções para a manutenção da árvore. Todas as religiões põem-se a defender e a combater. A coisa não funciona mais. E quando, a cada primavera, a árvore volta a dar brotos, cada um dos jardineiros reserva para si um galho, cada um dos quais com seu deus.
Dizem que os jardineiros são enviados de Deus. Aparentemente, têm dicas sobre a árvore, o que eles chamam de revelações. Estiveram no alto da montanha, ou retiraram-se para o deserto, para a floresta, viveram na neve, na areia, longe, em todo caso. São meio malucos e muito sábios... Como um se parece com o outro! Moisés, Jesus, Maomé, Buda, Joseph Smith...
- Deus meu! Você voltou ateu!
- De jeito nenhum! A força do divino eu senti, garanto! Simplesmente, eu a encontrei em toda parte, só isso. As raízes é que falam através dos galhos. Mas se for preciso escolher um galho, então fico atrapalhado! Tenho vontade de subir na árvore. Não muito. Gostaria mesmo é de me instalar num galho meio baixo de onde poderia ficar de olho na hera. Ver o jardineiro trabalhar, dizer-lhe que não pode muito, que serre direito, que não estrague a árvore tirando lascas nela toda.
Também lhe diria que a deixasse em paz na primavera: há um tempo para podar, um tempo para adubar. Eu lhe pediria que não protegesse os galhos com redes ou grades. Que não tirasse os ninhos, mesmo que os passarinhos façam sujeira. A sujeira faz parte da vida árvore.
- Cuidado com o pecado, meu filho. É fácil ser expulso do paraíso!
- É o que Deus tem de chato. Ele é violento demais! Quando não está satisfeito, maneja o raio. É excessivo, convenhamos.
- Quem é você para julgar Deus, seu vermezinho?
- Eu sou somente eu. Está certo, não é grande coisa. Mas se você for lógica, terá que admitir que Deus me criou assim.
- Pois bem, Deus fez poucas e boas!
- Ah! Está vendo? Você também o julga!
- Enfim... quem te curou, Theo?
- Umas pessoas. Bons jardineiros. Existem em toda parte.
- Então não foi Deus?
- Foi a árvore. Posso chamá-la de Deus, se te agrada.
Marcadores:
a viagem de theo,
catherine clement,
deus,
fé,
religião
Assinar:
Postagens (Atom)